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sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Até breve



Bem, pediram-me para discursar na festa de despedida que tão gentilmente me prepararam, com tanto carinho que até convidaram a ela, meu companheiro. Como disse ali, constrangido por falar em público, ainda que cercado de pessoas queridas, não sou bom com palavras verbalizadas oralmente, ainda mais quando de improviso. Não que seja melhor com elas escritas, mas me saem muito mais fácil. Diante disto…

            Quero agradecer a todos os envolvidos, direta ou indiretamente nesse gesto de carinho e respeito, “quase” surpresa. E ainda agradecer a convivência, a atenção e respeito dos colegas (servidores e bolsistas) que ali não puderam estar, por diferença de horário de trabalho, - coisa que volta e meia gera descontentamentos e bochichos, mas que não é senão contingência de um trabalho feito em turnos -, e/ou tantos outros motivos.

            Dois anos passam rápido, tanto que já estou no Espírito Santo há três… Mas todo afastamento traz em si o ensejo de despedidas e emoções que advém de tal condição. Assim, não é apenas pela alegre despedida que me prepararam, mas pela convivência salpicada aqui e ali de momentos de carinho. Acredito que cada um procura dar o melhor de si em tudo que faça, sim é claro existem exceções flagrantes, mas no geral é o que fazemos, e muitas vezes o melhor de um  não o parece para o outro, e geram-se interstícios de desencantos. Assim, aproveito para pedir desculpas a todos pelos momentos em que o cansaço, correria, pressa e pressão tenham feito com que agisse de forma desagradável ou ríspida.

            Aproveito ainda para agradecer a confiança, camaradagem e respeito da direção que me permitiu levar à biblioteca tantas exposições e atividades culturais em tão pouco tempo, o que me possibilitou o mestrado que ora inicio, e também pelo período que estive à frente da Divisão de Assistência ao Usuário, coisa que não queria, mas que foi necessária. E aí a cooperação de todos vocês foi mais que nunca imprescindível por tornar mais leve o fardo do “administrativo”.

            Agradeço a todos a participação nas palestras, saraus, encontros literários, que permitem tornar a biblioteca viva, atuante e não apenas um depósito de livros, fazendo assim com que se gere cultura e conhecimento, e não apenas guarde os suportes que levam a isso.

            Agradeço sorrisos, palavras de incentivo, olhares cúmplices, happy hours, arrastar de mobiliário, as festas a que fui convidado, as caminhadas em períodos de greve, os tantos cafés (e muitos sabem o quanto um café é necessário na vida de alguém. Rsrsrs)

            Agradeço aos bolsistas que facilitam tanto nosso trabalho e por vezes assumem tarefas de linha de frente. E que quando eu voltar, a maioria já estará formada, e, desejo, terão se tornado profissionais de sucesso em suas áreas.

            Poderia continuar a discorrer e a agradecer a tanta coisa vivida com vocês, mas antes de que essa se torne uma carta testamento e ainda mais enfadonha, termino por aqui. Sintam-se queridos e abraçados, cada um vocês. Mais uma vez… Obrigado por tudo. E até breve.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Fora Livros, fora!

Fora tu, livro.
Vai esfregar-te nos olhos de outros,
Não nos meus, que já te leram.
Faz com que sofram como eu sofri, com a sina de teus personagens, e a vil personalidade dessa gente bandida que descreves.
Fá-los sorrir com as tiradas de tuas páginas, como me fizeste gargalhar.
Encanta-os com a sutileza de tuas metáforas,
E tu outro, de capa dura, vai e ajuda o professor a enraizar em solos áridos, a raiz do aprendizado,
Para que ali floresça o conhecimento.

Saiam, saiam das estantes e ide por aí a ganhar o mundo.

Que vos pintem em cores fortes as personagens, as paisagens e, na falta de palavras para traduzir, todo o abstrato. E se me faltam, que as sorvam em ti, onde profusas proporcionam salutares benesses.
Despertai noutros seres, outras palavras tantas,
Para que assim eles produzam outros livros
Começando novo ciclo de escrita, leitura, descoberta e prazer.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Da fragilidade das relações



“Há algo  inevitável na queda de deuses; não caem um pouco de cada vez, desmoronam abruptamente e se espatifam, mergulhando no lodaçal. É um trabalho árduo e tedioso tornar a erguê-los, mas a verdade é que nunca mais brilham como antes.” 
John Steinbeck
O Elan
A amizade se dá por um ato de afinidade, de aproximação de curiosidade pelo que o outro é. O que sente; o que vê; o que viu. Como reage às coisas, o que quer ver, provar, sentir.
A tentativa de absorver no (do) outro sensações, fantasias, sonhos, colher pensamentos e razões.
Tillandsias em flor - Foto: Djair

O congraçamento
E no intuito de se reconhecer no outro, acaba-se, por também colocarmos todas as cartas à mesa. Sem, importar, se os naipes são de fantasias, de dor, amor, alegria, tristeza, ou se trazem apenas futilidades e mimos que se cultiva sem deles apercerber-se. E assim, tenta-se manter a simbiose. Comparando vinhos, degustando filmes, provando saladas e preferindo as carnes, escondidinhos...
 O esgarçamento
Mas a mais das vezes, tudo é frágil, fugaz, neblinado. E sem que se deem conta, ou talvez porque saibam de ambos o tamanho da carga de existir, se afastam. Distanciam-se sem alarde, tentando fazer silêncio para que a fuga não seja percebida, embora na maioria essa fuga, que o silêncio acoberta, seja recíproca.
 O rompimento
O momento do “creck”, onde se dá a primeira rachadura na porcelana, onde se inicia o rompimento, a mais das vezes, não nos é dado perceber com clareza. Pequeninas coisas, um gesto rude, uma palavra dita em tom de escárnio, um abuso na confiança, atos sutis... Um pequeno ciúme despertado por uma amizade outra, um descaso com algo que para o outro tem grande importância, uma piada feita na hora errada, a atenção maior ao celular ou a contínua interrupção quando falamos. A necessidade de ser o centro das atenções em qualquer ocasião lustrando seu ego, e colocando-o acima do super-ego dos demais... Qualquer deles pode ser o gatilho do primeiro disparo, a partir daí não há retorno, somam-se impactos. E como as ondas apagando pegadas, os sentimentos comuns e as ideologias afins, já não são nítidas, não se partilham. O tempo, esse se encarrega do resto, às vezes em cumplicidade com a distância, sua amante preferida. E assim, nem é preciso esperar o Alzheimer para que se esqueçam nomes.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Anatomia

Foto: Djair
Quase tudo dói
Alma, coração ou outro órgão qualquer onde se guardem os sentimentos.

Quase tudo se rói,
Amores, ódios, amizades, lamentos.

Hoje tudo está roto,
Como a figueira sem figos ou a roseira sem brotos.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

E o cheiro persiste...

Naquele dia, no início da tarde, ela pegou o ônibus com destino à capital, levava o filho pela mão, tinha seis ou sete anos, não mais que oito. Apenas uma valise, voltaria no dia seguinte, ia apenas para a festa de casamento da prima, levava a roupa do filho e a dela, o vestido de festa e a lingerie nova, que tinha custado um rim, já que o vestido era decotado e deixava transparecer alcinhas e rendas da peça superior.
A festa deve ter sido boa afinal, deve ter comido à beça, e assim no dia seguinte lá rumava ela de volta à cidade onde morava, não chegavam a 400 quilômetros, mas o ônibus fazia um pinga-pinga por outras cidades antes de chegar ao destino, e assim, ai de quem precisasse fazer o tal translado em coletivos. Amargava-se umas 06 horas de estrada.
Mal o veículo partia e ela sentiu o primeiro sinal de que algo não ia bem, a pontada fina da cólica logo acima do umbigo a fazendo suar frio. Não, não havia banheiro no ônibus...
Para sua sorte, ela pensou, logo na saída da capital o ônibus parava num posto de combustível para pegar uma carga que levaria, e alguns passageiros. Aproveitando a pausa, deixou o filho ali, já que ocupavam os primeiros bancos, desceu pedindo ao motorista só um instante, e correu ao toillete. Chegando lá, a porta fechada... Alguém informou que precisava pegar a chave no caixa, correu pra lá, pediu, pegou e correu de novo ao reservado. Mal enfiou a chave na porta sentiu que era tarde, escorriam-lhe pelas pernas o que tinha comido na festa...
A calcinha, da festa, aquela cara, que ela usara pela primeira vez, ficou ali mesmo no cesto de papéis, e com papel higiênico ela tentava limpar coxas, pernas, flancos... O vestido, não sabia como ou por qual sorte não havia sido atingido. Na torneira, parcos pingos caíam, impossibilitando uma melhor higienização, o desespero que parecia não ter como piorar provou como sempre que o pior não tem limites: começou a ouvir a buzina do ônibus, que o motorista tocava com pressa e nervosismo, dando a entender que ela já devia estar de volta a seu assento há algum tempo. Limpou-se como deu, a meia calça que tinha na bolsa foi juntar-se à calcinha nova no cesto, aprumou-se, ergueu a cabeça e entrou no ônibus, pedindo desculpas ao motorista, desconfiada, envergonhada, vencida.
Mal o ônibus deu partida, janelas abertas, lá atrás alguém grita: _Motorista, estão peidando aí na frente!
Outro responde gaiato: _Peidando nada, tão é cagando mesmo!
Ela afunda-se na poltrona, sente o calor que acompanha o rubor nas faces, e continuando a máxima de que sempre se pode piorar, ouve do filho: _Nossa mãe, é você. Você tá fedendo...Eu não tô aguentando não, vou sentar lá atrás.
_Vai não, que aí é que todo mundo vai saber, pode ficar aqui comigo!
_Não mãe, eu não tô aguentando não, deixa eu ir lá pra trás.
_De jeito nenhum, pode ficar aqui.
E assim a pobre criança teve que ficar resguardada sob os eflúvios do que tinha sido um jantar elegante numa festa chique. Lá atrás, volta e meio, um manifesto em alto brado retumbante contra a emanação mal cheirosa, que era prontamente respondido por um e outro comentário em tom de chacota.
Duas horas depois, o ônibus faz sua parada para um café. Vencida, mas não derrotada, sentindo um certo alívio apesar de todo o desconforto, ela desce, pede ao filho que vá comer algo, entregando-lhe o dinheiro, e corre ao caixa, compra um sabonete, daqueles verdes, baratinhos, que era o que havia na parada simples da cidadezinha que pouco mais era que um povoado. Compra de uma vez três litros de água, sem gás, sem gelo, e no banheiro, lava as pernas como pode, mãos, braços, uma, duas, três vezes... Enfim termina, quando todos já estão subindo de volta ao ônibus. Pergunta se o filho comeu, esse diz que sim, para ela já não há tempo para sequer um café, compra mais uma água, dessa vez uma garrafinha, gelada, mas assim sem gás, pois o burburinho em seu interior ainda grande, não vai arriscar.
Sobe ao ônibus com a criança, num suspiro aliviado encosta as costas na poltrona, vira de lado e tenta sorrir para a criança que a olha e responde ao sorriso da mãe com um comentário: _Hummmm mãe, não adiantou nada, você ainda tá fedendo!

Foto: Djair

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Sobre o retorno ao Facebook

Os que me conhecem mais de perto, sabem de minha predileção pelo carmere, tinto, da casa Concha y Toro, no entanto depois de dias tensos e intensos, até os gêneros de primeira necessidade estão se esvaindo aguardando disposição para que se faça o reabastecimento. Então com um Fortant de France, safra 2012, se não me falha a memória presente de Patricia, na última noite de caldos cá em casa, é que anuncio o retorno...
E assim, depois de três meses de exílio, resolvo voltar ao Facebook. Um tempo bom, de irritações diminuídas, a agradecer aqueles que preocupados com minha ausência procuraram números antigos e acabaram por me ligar no fixo, gente que via blog e e-mail mandou notícias, outros que mandaram zaps e sinais de fumaça de diversos outros tipos. Como se diz na atual modinha: “Gratidão”! De verdade. Por outro lado mais de duas dezenas se foram, de vez??? Se assim for... Bye, bye baby, bye, bye... Embora alguns façam realmente grande falta.
Mas enfim, tem muitas fotos nesse perfil que daria trabalho copiar e salvar em outro espaço; muita gente que só tenho contato por aqui; e, claro, também tem os chatos que não fazem parte de meu mundo e nem estão adicionados mas se acham no direito de virem comentar abobrinhas e patasquadas em minhas postagens, gente que posta Prajalpas diversas, gente que compartilha até fotos pessoais mas é incapaz de curtir qualquer coisa antes de compartilhar e acha que é isso mesmo (e talvez seja, o chato aqui sou eu), gente que não perde nada, mas também é incapaz de curtir ou comentar qualquer coisa, e que quando o faz é em "pvt" para assim, não se comprometer, e levanta a bandeira “Rede”, já que “Social” não quer dizer nada nesses casos. T Tem a rede de trabalho, pois às vezes o social dá lugar ao profissional e é por aqui que são agendadas reuniões, saraus, exposições e o que mais der.
Mas têm os que se fazem presentes, os que dão saudades, os que trocam ideias e não apenas palavras, gente que a gente vê a foto e morre de vontade de estar perto, e lembra a última cerveja ou vinho tomados juntos. Tem gente que nunca vi mas que é mais próxima que muito parente, tem de tudo nessa geleia geral que, com licença de Torquato Neto, tomo emprestado o título para metaforizar a ‘rede social’, e assim vamos, mais uma vez, de volta... Até sei lá quando, lembrando que a ausência foi deveras salutar. E assim vamos, mesmo tendo deixado de acreditar em “curtidas”, em “amigos”, em reciprocidade, pelo menos nesse ambiente; de resto, de ingênuo que sou, sigo acreditando naquilo que desde há muito eu devia ter deixado de acreditar, que está no ar, nas entrelinhas, aqui no blog...

“Metade de mim agora é assim
De um lado a poesia, o verbo, a saudade
Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
E o fim é belo incerto, depende de como você vê
O novo, o credo, a fé que você deposita em você e só.”

Foto: Tania Macedo - Eu, em uma das edições do Premio Portugal Telecom de Literatura.
Poesia citada: Trecho da música O Anjo mais velho

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Primeira infância

A recordação mais antiga que trago - e talvez já tenha falado disso, pois parece que já contei tudo o que tinha a dizer - possivelmente é a de minha mãe a me comprar lanche numa lanchonete, onde havia um enorme aquário cujos peixes me encantavam. Talvez por isso a partir dos nove, ou dez anos de idade, nunca mais tenha deixado de tê-los, senão por breves hiatos. Mas o texto de hoje não é sobre eles, nem sobre as duas ciganas exóticas que naquele café estavam e que me chamavam atenção com seus muitos colares, brincos e pulseiras, anéis e roupas coloridas, as quais me lembro ser saias enormes, enriquecidas com muito pano e de um vivo cor de abóbora de fazer inveja ao próprio fruto.

A cidade era São Mateus do Sul, no Paraná, e como já enunciado, dela pouco me lembro; o que sei, na maior parte, é o que me contaram... Que dei banho numa galinha, com café, e de garrafa térmica em punho fui surpreendido em plena ablução… Que não gostei de meu tio Antônio, quando lá esteve a nos visitar, vindo de carro, do Maranhão, naquele distante final dos anos 1960, numa época em que o país se fazia com homens e estradas. Pela narrativa, atentei contra sua vida, jogando nele, que estava deitado em uma rede, uma faca de mesa. Numa foto daquele período, ele ostenta uma cabeleira que já não possui há muito tempo e óculos ray-ban a compor sua pinta de galã.

A escola, ou melhor, o jardim de infância era de freiras, e onde as lembranças não alcançam, fica a provar uma outra foto, que provavelmente minha mãe ainda tenha, na qual estou ali e entre tantas crianças me destaco por ser o único de cabeça baixa e mão na testa, num sinal claro de cansaço. Aliás, esse cansaço trago desde aqueles longínquos três anos de idade. O uniforme verde, calções curtos, naquele tempo a nos diferenciar dos púberes, que mais tarde se convencionou chamar de adolescentes. Na ponta da foto, a irmã baixinha, cuja estatura, próxima à nossa, dá a explicação à alcunha. Segundo os relatos paternos, eu a chamava de irmã “bafinha”, por não pronunciar corretamente o “x”. Vai ver, desde aí, já teria problemas com o efe, vai saber, mas chegaremos a isso no primário.

As reminiscências escasseiam e passam pelos dois coleguinhas vizinhos, da casa ao lado, com quem muito brincava, e em dias de chuva a diversão era nos escondermo-nos de nossas mães. Dentro de casa, e dos risíveis esconderijos, ficávamos a gritar a nossas mães, repetido a frase provocadora e mentirosa: “Tô no barro, tô no barro!!!” Lembro da enorme palmeira e seus coquinhos-catarro no quintal lateral, do sobrado enorme onde moramos, antigo prédio dos correios, e que quando dali fomos embora, meu pai passou a procuração de venda a um amigo a quem nunca mais viu, num dos muitos golpes que tomou pela vida. Ali, ele também comprou as ações do Bradesco, - que me valeriam, uma década depois, por alguns anos, as camisetas brancas com o nome grafado em vermelho - fruto da amizade com o vizinho gerente, nosso vizinho com cuja filha eu também brincava. Da casa desses só me lembro de uma enorme escada.

Era eu então uma criança muito quieta; ainda trago na testa a cicatriz de quando derrubei por cima de mim a cristaleira de minha mãe. Seu maior medo era que eu caísse da escada, onde segundo ela conta, do alto desta, uma vez gritei que a vó, há pouco falecida, ali estava e teria me dito algo que ela, imperdoavelmente, não se recorda. O galinheiro no fundo do quintal é a única lembrança que tenho de animais em casa; não devíamos ter cachorro já que Feijão, o cachorro marrom de quem eu tomava a comida meses antes, ficara no Rio de Janeiro, em Resende, quando nos transferimos de lá. Mas essa história já está registrada no blog em outro causo.

Nessa mudança, meu pai nos levou no Fusca, e na estrada, em limites de velocidade da época, não teve tempo de frear e atropelou um cachorro que surgiu repentinamente na estrada. Ainda segundo minha mãe, só houve o tempo de dizer: "Segura o menino que vai bater." Com um braço me abraçou forte e com o outro segurou o apoio de mão que existia nos fuscas, conhecido  popularmente (ao menos o foi nas décadas seguintes) como: "puta-que-o-pariu". Sim, naqueles tempos criança também viajava livremente no colo, e no banco da frente. O estrago no carro foi grande devido a velocidade a ao impacto. O pobre cão que vagava pela estrada foi-se e ficamos nós. 




Foto: Djair - Uma das tantas estradas percorridas nessa vida.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Santos Sepulcros


“(…) Todas as variedades de cruzes, anjos, bustos, medalhões, colunas, corações, âncoras,
figuras chorando, espadas, flâmulas, brasões, tochas viradas, vasos cobertos com panos funerários,
ampulhetas, corujas, caveiras, poliedros, livros da Vida abertos ou fechados, a foice do Tempo,
inscrições lacônicas ou lancinantes, humildes ou vaidosas, apelos de oraiporele ou porela
– Tudo recobrindo a mesma treva e o mesmo zero.”*

Pedro Nava


Quando, nos dias de finados, visitávamos as sepulturas de meus avós, eu, já desde cedo, era o incumbido de cortar as flores do jardim. Morávamos próximo de uma área já às entradas de uma reserva, à beira do morro onde, se adentrando um pouco, logo iniciaria a reserva dos Pilões. De lá, voltava com margaridas selvagens, amarelas, daquelas que se esparramam como trepadeiras, helicônias variadas, e ramas de manacás, mais difíceis de apanhar pela altura dos galhos… A mais das vezes o grande sucesso, quem o faziam eram as hortênsias do jardim de casa, os antúrios dos vasos de mamãe, que juntados às folhas de samambaias iam repousar e morrer também, elas, nas catacumbas de entes amados.

Chegando ao cemitério, primeiro avistávamos o lindo jazigo em granito, que era do padrinho de meu pai – aliás de sua família, pois aquele já não tinha nada, só as preces e velas que lhe eram acesas. Talvez fosse o mais vistoso dali, ele que tinha sido prefeito, e cuja lenda, por ter sido maçom, quem sabe, era que se transformava em lobisomem. Mas meu pai nunca falou muito dele; afinal, a mania de pobre dar filho a ricos para apadrinhar só distancia afilhados dos padrinhos, até pela quantidade de afilhados que os “remediados” têm. Já da madrinha, que não sei em que sepulcro foi parar, contava ele que era muito magra, alta, branca e feia, e que os irmãos dele o convenceram que seria uma bruxa; assim, todos os confeitos que ela lhe dava iam parar nas mãos de meus tios, já que meu pai morria de medo dela e seus possíveis feitiços e venenos.

A poucas quadras depois, chegávamos à residência oficial de meus avós, onde minha mãe abria os buquês, e em cruzes vivas transformava as flores sobre a cerâmica dos túmulos; acendíamos as velas, rezávamos procurando entrar em sintonia com eles, depois íamos ao cruzeiro rezar por outros parentes…

Quado criança, uma vez, nesse cemitério de Melo Viana, em Coronel Fabriciano, que não tinha muros e sim cerca, e poucas covas transformadas em sepulturas, o que deixava a terra, ali vermelhada, mais presente, para lembrar talvez que a esse pó retornaríamos – nesse cemitério, próximo ao cruzeiro onde fomos render homenagens aos parentes postos em sossego, morrentes em outros sítios, nos deparamos com aquela cena inusitada da vela que lacrimejava sangue. Uma pequena multidão já ao redor, a olhar e a comentar a novidade da pequena vela, comum, que chorava sangue. Pois bem, minha mãe foi lá ver, pegou um raminho, um pequeno galho seco, o que seja, e escarafunchando o pavio do lume, tirou dali os grãos de vermelhão; daquele mesmo que se misturava à cera para dar mais cor ao assoalho, e assim… c'est fini. Acabou-se a farsa, sabe-se lá provocada com que intuito mistificador. Finda a diversão, como o pequeno aglomerado, agora silencioso, que já dispersava, fomos embora dali, rezar noutra freguesia.



* NAVA, Pedro. Balão cativo. São Paulo: Companhia das Letras. 2012 p.70

Foto: Djair – Cemitério Municipal de Floriano – PI



domingo, 1 de maio de 2016

Comendo com os olhos

Igreja matriz de Ubatuba. Foto:  Pref. Mun. Ubatuba
Na parede da memória, cada vez mais desbotada, o nome já se apagou, mas ficava na primeira esquina, no sentido de quem se dirige ao centro, logo após o campo de aviação, que muitos, principalmente os nativos, insistem em chamar de aeroporto. Era ali, naquela esquina que ficava meu restaurante predileto em Ubatuba.

Mesas de madeira, comme il faut, luz difusa, nunca lotado, garçom atencioso… Mas não era apenas isso, não era a comida com porções bem servidas, dentro de um preço honesto, e nem pelo sabor digno de agradar palatos mais enjoados; não era pelo vinho, ou pela decoração que me deixava com vontade de levar várias peças para casa, nem pela abundância do verde em vasos; aliás, era por todo esse conjunto sim, mas o que muito me atraia para o charmoso bistrô era que ali aconteciam, enquanto saboreávamos nossos pratos, no meio do saguão, ladeado por nossas mesas…
aulas de tango, às sextas e sábados a noite. No máximo dois pares a cada hora, com direito ao casal de professores de mostrar passos e dançar com os alunos. E ali embevecidos com a dança em seu gestual libidinoso, a música naquele tom que acaricia os ouvidos, comíamos mais devagar e apreciávamos o tinto sem pressa.

Para mim, que nunca aprendi a dançar, nem com as aulas de dança de salão e toda a paciência de Laura, nem com o incentivo de Patricia, aquilo, sim, era uma festa para os sentidos. O melhor programa para as noites chuvosas do balneário.

Por tudo isso, o espaço se cristalizou e eternizou-se em minhas lembranças. O frequentamos todas as vezes que fomos a Ubatuba, várias ao longo do ano, a cada pequena folga obtida ou roubada à labuta. Até que um dia ele fechou. E aí, uma pequena tristeza nublou nossos olhos, como o céu de Ubatuba onde tanto chove, e lamentamos aquela “perda”.

Hoje, me veio à mente o rapazote que víamos sempre a tomar aulas, com a parceira bem maquiada e vestida, assim como ele, a caráter para a dança. E o simpático professor, pouca coisa mais velho que ele, a ensinar um passo. Da mesa, sorrimos ao escutá-lo: “_Mas isso é muito descortês, eu me recuso a fazer isso com uma dama.” No que o professor chama a professora-assistente, e diz: “vou te mostrar, e aí, você vai mudar de ideia”. Toma nos braços a colega, numa volta passa-lhe a perna por trás da sua, como se fosse um golpe a dar-lhe uma rasteira, e ela, levantando a perna, inclina as costas como se fosse cair, amparada por seus braços, enquanto uma das mãos segura a de seu condutor, retorna à posição ereta, enlaça com sua perna de polvo as daquele que a conduz e saem a rodopiar um sobre o outro. Apenas uma coisa nos faltou: coragem para aplaudir!


quinta-feira, 14 de abril de 2016

Cabelo, pra que te quero?

Quando criança, colecionava figurinhas nos álbuns, sem jamais ter completado um. Vieram selos, postais, cartões telefônicos, mas ali, pela sétima série comecei uma bizarra coleção de... cabelos.

Sim, fios de cabelos. Colocava-os em um caderno, com um durex, adicionando data e a quem pertenciam, fios pequenos, longos, louros, escuros, naturais em sua maioria já que, àquele tempo a tintura, não era algo tão difundido, entre a mulherada. A grande maioria dos fios provinha das colegas de colégio, mas também de vizinhas, primas, e mesmo professoras, Marisa, Bartira, etc. Tinha de várias, às vezes colhidos nas costas, fios que caíam, às vezes pedidos e dados gentilmente; outras vezes um puxãozinho inusitado me propiciava o troféu...

Naqueles dias, eu justificava a coleção como sendo um pedacinho da pessoa que ficava comigo. Obviamente, ideia colhida de uma música muito difundida em rádios e programas televisivos da época:  “Fio de cabelo”, de João Mineiro e Marciano, onde o verso do refrão diz:
 
 "E hoje, o que eu encontrei
Me deixou mais triste 
Um pedacinho dela que exite
Um fio de cabelo no meu paletó..."

Não sei com quantos fios contava, aliás com quantas amostras, já que de algumas tinha vários fios, formando uma pequenina mecha de três, cinco cilindros de espessura fina, como diz outra música “Cabelo”, de Arnaldo Antunes e Jorge Ben. O fato é que já ia longe no caderno de 200 páginas, e àquele dia, pedi o fio a uma colega, com quem tinha já uma aproximação e que estudava na sala em frente à minha. Não lhe lembro o nome, nem o diria se lembrasse; era lourinha, branquinha, bonitinha, como diz uma conhecida: tudo “inha”. E obtendo o consentimento, tirei-lhe o fio, da parte de cima da cabeça; foi dali, daquela região logo acima da testa, que me veio o fio finíssimo e dourado, acompanhado de um pequeno, pequeníssimo anopluro. A caminhar sobre aquele fio amarelo, o pediculus capitis me causou tal desconforto que agradeci, desconversei, e não sei muito bem como saí dali, provavelmente tendo deixado o fio cair no corredor.

Foi o que bastou; todos os pedacinhos das pessoas foram jogados fora e assim acabou-se a coleção. Como diria uma colega, deu-me um “nojinho”... Sem revelar o santo, cheguei a contar o milagre a alguns que me perguntaram pela coleção. Não sei se era crível, uma vez que eu mesmo a acho inusitada, mas como diria Chicó*: “Só sei que foi assim”.



* Personagem de Ariano Suassuna presente em “O auto da compadecida.”

Foto: Internet - "Natasha Moraes de Andrade " disponível aqui.
Clicando nas palavrinhas azuis você pode ouvir as músicas citadas.